quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ei, mas o sertão não é mais de vidas secas?



Crônica de uma sequência de viagens aos rincões do Nordeste — onde surgem, em meio à pobreza, sinais de superação do atraso e de muita vitalidade social
Por Ibirá Machado
Durante os meses de junho a agosto de 2009 tive a oportunidade de passar cerca de 45 dias no sertão nordestino. Foram três viagens consecutivas no interior dos estados do Piauí, Pernambuco e Ceará, respectivamente, com uma rotina diária corrida de visitas a dezenas de famílias.
Eu sabia, em parte, o que me esperaria, mas jamais imaginava ser obrigado a desconstruir toda uma imensa imagem que nunca ninguém – nem nada – tinha feito o favor de mudar. É muito verdade que é somente com a experiência real que podemos entrar em contato verdadeiro com uma realidade, ainda que sua absorção e compreensão dependam demasiadamente de nossa própria subjetividade.
E foi assim que, graças ao emprego que eu tinha como consultor ambiental, fui lançado à caatinga para coordenar o cadastramento de cerca de 1.500 famílias cujas propriedades seriam atravessadas pela Ferrovia Transnordestina, em exatos 1.728 quilômetros de extensão. Informações levantadas, esses dados serviriam depois à elaboração dos programas básicos ambientais durante e após as obras da Ferrovia – uma das principais promessas do governo Lula dentro do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Meu primeiro contato com o Nordeste – que eu nunca tinha visitado – foi pelo Piauí. Pousei em Teresina e parti direto 500 quilômetros ao sul da capital, até a cidade de Eliseu Martins, onde ficará o pátio final da Transnordestina. Ali, a caatinga perde espaço para o cerrado e é evidente que a seca não se configura como realidade tão grave quanto no semi-árido propriamente. No entanto, enquanto estado com o menor PIB per capita do Brasil, o baixo poder aquisitivo é generalizado e visível por todos os lados.
Mas foi percorrendo os quase 500 quilômetros dali em direção à fronteira com o estado do Pernambuco, no coração do semi-árido, que as surpresas começaram a aparecer.
Pouco a pouco, conforme entrávamos em contato com as famílias e víamos o próprio contexto socioespacial em que viviam, assustei-me com o básico que eles possuíam – coisas como água, saneamento, eletricidade, alimentação e saúde. Mas o susto não dizia respeito à precariedade desse básico – e nem é esse, mesmo, o ponto –, mas sim por saber que quase nada daquilo existia há pouco mais de cinco anos.
Inevitavelmente, no contato visual já salta à vista as cisternas construídas na quase totalidade das casas do semi-árido, que captam águas das chuvas a partir de calhas nos telhados, e que começaram a ser instaladas ainda no final do governo FHC. Como efeito imediato, e talvez inesperado, além de terem à porta de casa água potável quase o ano inteiro (quando a água da cisterna acaba, caminhões-pipa do exército passam repreenchendo-as), uma das mais importantes pilastras do coronelismo foi subitamente extinta. Com propriedades grandes o suficiente pra conterem açudes ou represas, os antigos “coronéis” ofereciam suas águas (de qualidade incerta) em troca de, no mínimo, votos.
Mas a água das cisternas não é tudo, embora já garanta uma qualidade de vida antes impensada. Também foram construídos imensos poços regionais, com bombas elétricas, que redistribuem uma certa quantidade de água para caixas d’água e das caixas para as casas, possibilitando a implementação de outro quesito que, para nós, é absolutamente básico: banheiro. Até poucos anos atrás, qualquer necessidade fisiológica de uma imensa parcela dos moradores do semi-árido nordestino era aliviada literalmente no meio do mato.
Acontece que mesmo esses poços regionais não seriam implementados caso o programa Luz Para Todos também não tivesse sido amplamente disseminado, por todos os cantos e descantos da caatinga. Possibilitou-se, assim, vetores de desenvolvimento antes impossíveis de serem criados, dando respaldo a melhoras sensíveis nos indicadores de desenvolvimento humano da região.
Aliado a isso, o efeito dos agentes do Programa de Saúde da Família (em realidade estabelecido desde 2006 como Estratégia de Saúde da Família, já que não há objetivo final desta ação, e sim uma continuidade), que existem desde a década de 90, foi potencializado e permitiu-se o estabelecimento de novos paradigmas de saúde básica. Esses fatores integrados estão proporcionando uma silenciosa pequena revolução na saúde pública brasileira, vagarosamente incutindo nas famílias novos padrões de higiene, desonerando, assim, o custo desnecessário dos postos de saúde. Tradicionalmente, os brasileiros sempre buscaram postos de saúde por causas escusas, gerando filas e prejudicando a necessidade de atendimento daqueles que efetivamente precisam.
E foi também no meio disso que entrei em contato direto com o mais polêmico dos fatores que estão revolucionando a vida dos moradores do sertão: o Bolsa Família. Antes incapazes de plantarem e criarem o alimento mínimo suficiente, por diversos fatores – dentre eles a condição semi-árida e a histórica exclusão tecnológica que permitisse melhoras na produção –, agora com uma renda mínima oferecida pelo Bolsa Família já é possível não mais morrer de fome, literalmente.
E ainda com a água que hoje todos têm em casa, é muito raro um animal morrer de sede, sobretudo as aves, cenas que antes faziam parte de nosso imaginário sobre o sertão nordestino. Ou seja, melhorou não só o acesso ao alimento, como também melhorou a qualidade da alimentação em si.
Como contrapartida obrigatória, o Bolsa Família exige que as crianças estejam matriculadas nas escolas. Ao conversar com as famílias, ficou claro que antes disso ser instaurado, ao menos na época das semeaduras e das colheitas as crianças não iam às escolas, pra ajudarem na lida familiar. Agora, no entanto, elas não só vão sempre à escola, como isso também está começando a alterar a rotina das famílias do sertão, e também de todas as comunidades.
Foi intensificada sobremaneira a oferta de transporte público escolar para os moradores das áreas rurais, de forma a garantir que este prerrequisito básico seja efetivamente cumprido. Mas embora os dados comprovem que as faltas escolares tenham sido reduzidas em mais de 30%, o desempenho dos estudantes não melhorou. Evidencia-se o que já sabemos: a condição das escolas – ainda que o número delas também tenha sido ampliado – e a valorização dos professores ainda têm muito o que melhorar.
E ainda sobre o Bolsa Família, seu segundo efeito impressionante foi explodir o comércio dos vilarejos e cidades do interior do sertão nordestino, dando impulso a um ciclo econômico regional cujas dimensões, talvez, não poderiam ser imaginadas. O que vi foram cidades iniciando um ciclo econômico sem precedentes, com geração de emprego também sem precedentes, com o estabelecimento de uma dinâmica urbana que era simplesmente inexistente desde que o Brasil era Pindorama.
Isso porque eu ainda estava no Piauí. Ao transpor a fronteira para o estado seguinte, no mês seguinte, deparei-me com um Pernambuco de pernas para o ar. Crescendo economicamente três vezes mais que o Brasil, sendo proporcionalmente o estado com a maior carga de investimentos do país, Pernambuco vem registrando transformações semelhantes à que a China vem vivendo e isso é algo absolutamente visível e impressionante.
Tudo o que eu havia visto até então no Piauí, de transformações socioeconômicas recentes, repetia-se em Pernambuco, mas com a diferença de que neste estado ainda mais coisas estavam acontecendo, em dimensões muito diferentes. Com área menos que a metade da área do Piauí, mas com população quase três vezes maior, seria impossível não ver em Pernambuco efeitos de transformações ainda mais intensas.
Bem no centro do semi-árido, a cidade de Salgueiro, distante 500 quilômetros de Recife, acabou também servindo de centro pra muitas das transformações que não só o estado vem vivendo, mas também toda a região. Ali, a Ferrovia Transnordestina já estava em obras, de um pequeno trecho que ligaria a cidade ao município de Missão Velha, no sul do Ceará. Não só bastasse isso, polêmicas também à parte, a transposição do rio São Francisco, já estava a pleno vapor quando por lá passei, tendo Salgueiro também como base.
Consequentemente, o município começa a servir de vetor da interiorização do desenvolvimento socioeconômico da região, graças à interligação um eixo até então inexistente, entre as cidades gêmeas de Petrolina-Juazeiro (entre PE e BA, às margens do rio São Francisco) e Juazeiro do Norte (CE).
Mas antes de falar um pouco mais deste vetor, é necessário que se diga um pouco mais a respeito da transposição do Velho Chico. A obra é deveras polêmica, cara e sua abrangência, na realidade, ainda é um tanto incerta. No entanto, a se considerar o restante de gastos que já estão sendo realizados não só em Pernambuco, mas também em todos os outros estados do Nordeste brasileiro, é uma falácia defender que esses mais de quatro bilhões de reais poderiam ser investidos em outras áreas. Também é impossível afirmar que o retorno de um investimento desta monta seria mais expressivo se aplicado em outros setores.
A transposição já está dando respaldo a projeções futuras de vários municípios de toda a área de alguma forma envolvida. Em pouco tempo em que a obra estiver pronta e vertendo água para outras bacias hidrográficas do semi-árido, inúmeros municípios que antes contavam com represas outrora construídas pelo centenário DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), logo poderão utilizar estas águas para irrigação dos agricultores locais. Se quem vai se beneficiar destas irrigações serão os grandes proprietários, é impossível saber. Mas afirmar que somente 5% do Nordeste será beneficiado é não acreditar no estabelecimento de novas condições de infraestrutura para a ultra necessária interiorização da economia nordestina. E, daí inquestionavelmente, a área afetada positivamente será muito superior a 5% do Nordeste.
E é então neste contexto que entra no cenário outro importante município da região, ainda em Pernambuco: Serra Talhada. Distante 400 quilômetros de Recife, Serra Talhada já apresentava um desenvolvimento econômico mais expressivo que Salgueiro antes que toda essa revolução se iniciasse. Após o início desse processo, no entanto, a cidade foi escolhida para receber um muito bem equipado campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco (Unidade Acadêmica de Serra Talhada – UAST), que, unindo-se a outras universidades já existentes ali, consolidou o município como polo educacional do interior nordestino.
Criado em 2006, o campus hoje oferece cursos de Agronomia, Biologia, Economia (com ênfase em Economia Rural), Engenharia de Pesca, Sistemas de Informação, Licenciatura em Química, Administração, Zootecnia e Letras. Levando para o interior do estado um sem precedentes número de estudantes, a UAST iniciou um processo que o Sudeste brasileiro já estava plenamente acostumado com seus campi pelo interior dos estados. Essa nova realidade não só já está absolutamente contribuindo com o desenvolvimento socioeconômico da região, como está ajudando significativamente a suprir uma demanda cada vez mais crescente de mão de obra qualificada em toda a região do semi-árido.
E talvez não coincidentemente, é em Serra Talhada que esta nova configuração educacional e cultural está se configurando no interior de Pernambuco, justamente onde nasceu e construiu sua fama nada mais que Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
Assim foi que, sabendo disto, a cada casa que parávamos e que havia alguém realmente idoso, não tinha como não perguntar se a pessoa chegou a conhecer Lampião. Parece besteira, mas se não for em oportunidades como estas, ou entramos em contato com a história e todas as suas mais incríveis, deliciosas e assustadoras revelações, ou passamos reto por um mundo que vai sempre nos parecer insosso. Mas dona Ana garantiu nossa viagem pelo sertão do Vale do Pajeú; nos seus quase 80 anos, era ela neta do primeiro inimigo de Lampião, nunca morto por ele, mas que, segundo ela própria, teria motivado a construção do mito Lampião, o mais temido cangaceiro que tivemos notícia. Não tínhamos tempo a perder com conversas nas casas das famílias – já que eram muitas –, mas nessas horas fazemos do tempo algo secundário, se não inexistente, e a vida se abre com sua música, cores e formas.
Daí seguimos em direção à Zona da Mata pernambucana e pela primeira vez em quase um mês eu veria uma mata úmida no nordeste, deixando pra trás o sol e a secura da caatinga. Só não esperava que ver esta tal umidade nordestina resultaria no cancelamento do cadastramento das últimas trinta famílias do Pernambuco, tantas eram as chuvas.
Ainda assim, nossa base neste processo final foi o município de Caruaru, famoso por sua feira – a maior a céu aberto no mundo – e também por suas festas de São João – que competem com as de Campina Grande (PB) o posto de maiores do mundo. Mas isso importa menos aqui. Importa que Caruaru também impressiona os desavisados, com tamanha pujança econômica que iniciou seu despertar em anos (muito) recentes. Não só por conta da já histórica tendência ao comércio e à produção cultural que a cidade apresentava, mas também pelo tardio despertar da urgente necessidade de se interiorizar a economia dos estados da região.
Hoje, Caruaru está conectada a Recife por 140 quilômetros de estradas duplicadas recentemente inauguradas em concreto (BR-232). Tal investimento se justifica pelo intenso movimento de caminhões transportando todos os tipos de bens de consumo que, cada vez mais, passam a ser produzidos no nordeste e – sobretudo –, no interior. E a explosão econômica pernambucana também começa a se materializar em enormes condomínios fechados de altíssimo padrão, tanto às margens da rejuvenescida BR-232, quanto em locais mais afastados – como é o caso do Alphaville Caruaru, todos sendo inaugurados agora.
Mas é quando se chega a Recife, mais propriamente à Praia de Boa Viagem, e o que se vê é uma metrópole em franca expansão, vivendo uma das mais rápidas expansões imobiliárias do Brasil nos anos recentes, com lançamentos de um punhado de edifícios residenciais de alto luxo de 40 andares.
No mês seguinte, finalmente, cheguei no Ceará. Sobre as viagens anteriores eu omiti uma coisa interessante, mas que justamente dizia muito mais respeito a este estado agora. Na primeira das três viagens, ao Piauí, embora eu tenha pousado em Teresina ao chegar, para ir embora peguei o avião em Juazeiro do Norte, no sul do Ceará, próximo à fronteira com o Pernambuco. Na viagem seguinte, desta vez ao Pernambuco, pousei em Juazeiro do Norte e, de lá, parti para o estado vizinho ao sul. E, finalmente, para a última viagem, ao Ceará, cheguei também via Juazeiro do Norte. E estando esta cidade cravada no coração da caatinga, foi muitíssimo interessante dividir o avião com algumas dezenas de pessoas que voavam pela primeira vez, ou voltando às suas terras natais para nunca mais sair, ou indo visitar a família, aproveitando o expressivo aumento recente da renda.
Muito além de ser a meca católica do nordeste inteiro, Juazeiro do Norte é a sede da Região Metropolitana do Cariri, com mais de 500 mil habitantes, compondo a aresta norte do coração econômico-cultural do sertão nordestino, cuja ponta sul é formada pela Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento do Polo Petrolina e Juazeiro (cidades gêmeas às margens do São Francisco, entre Pernambuco e Bahia), com mais de 800 mil habitantes. Se estendermos essa região a Serra Talhada, temos num raio de cerca de 200 quilômetros uma pulsante região com mais de um milhão de habitantes.
E este pulsar não é apenas uma expressão. Toda essa região registrou um crescimento econômico de cerca de 20% anuais nos dois últimos anos, duas vezes mais rápido que a China, por exemplo. Não é de se espantar, portanto, o tamanho da minha surpresa que tive ao passar por lá. Distante mais de 500 quilômetros do litoral, tanto a norte (Fortaleza, CE), quanto a leste (Recife, PE), é ali que está acontecendo a mais importante interiorização econômica que o Brasil precisava realizar pra diminuir sua injusta e irracional desigualdade regional.
Juazeiro do Norte e Crato, as duas maiores cidades da Região Metropolitana do Cariri, inauguraram há pouco menos de um ano o Metrô do Cariri, feito com a tecnologia VLT, configurando-se como o primeiro metrô a ser inaugurado no estado do Ceará, antes mesmo que Fortaleza. Isso pode de novo parecer besteira, mas estamos falando de uma região que há uma década, somente, registrava índices de IDH considerados baixos e um PIB per capita praticamente insuficiente pra suprir o mínimo. Mas tudo mudou.
Assim como o Pernambuco, o Ceará é o estado que apresentou os maiores avanços do PIB nesta década e, como vimos em ambos os estados, não se tratou de um avanço concentrado somente na capital – como historicamente estivemos acostumados. Graças a um número muito expressivo de políticas econômicas e sociais conjugadas nos últimos anos, toda essa região passou a registrar um desenvolvimento espacializado, descentralizado, integrado e surpreendentemente planejado.
Ainda muito há que ser feito. As estradas deixam demais a desejar, com exceção de algumas, como a BR 232, que corta Pernambuco de ponta a ponta. As rodovias federais no Piauí, quando por lá passei, também estavam muito decentes, recém-recapeadas em obras emergenciais tocadas pelo exército. Também a Ferrovia Transnordestina não terá um efeito tão expressivo se não for futuramente conectada à também em construção Ferrovia Norte-Sul. Os portos nas pontas dos dois eixos da Transnordestina, o de Suape, no Pernambuco, e o de Pecém, no Ceará, estão já recebendo vultosos investimentos e que devem ser mantidos.
No restante da área social, o trabalho apenas começou. Em comparação com o sul do Brasil, o interior nordestino vivia uma realidade quase impossível de se comparar, caindo até para o negativo. Foram séculos de privação de todos os tipos, mas que iniciou a passos largos a maior transformação socioeconômica da sua existência.
E assim foram minhas descobertas em pouco mais de 40 dias no sertão. Descobertas, porque não tinham me contado antes. De imagem, eu tinha aquilo que Graciliano Ramos havia me mostrado em suas linhas do “Vidas Secas”, escrito em 1938, depois ilustradas no filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos, de 1963. Desde então, o que se fez pra nós do sul/sudeste foi a construção de uma contínua mentira de que eternamente a caatinga era, sim, uma vida seca, desgracenta e do avesso.
Mas não é, e eu vos garanto. E agradeço, por fim, às dezenas de famílias que serviram almoço, café e doces a mim e minha equipe. No começo tínhamos receio, exitávamos em aceitar, mas em pouco tempo éramos nós mesmos que pedíamos almoço, quase sem vergonha na cara. Mas é que, na verdade, eram esses os momentos mais ricos e de orgulho para as próprias famílias. Servir o alimento plantado e criado por eles próprios encerra o ciclo mais importante de suas existência, quando o fruto do trabalho diário é, finalmente, transformado.
Ibirá Machado é um geógrafo trabalhou há alguns anos com consultoria de impactos socias, ecológicos e econômicos destas grande obras pelo Brasil adentro. Alimenta atualmente o blog de Cinema Indiano.

domingo, 14 de novembro de 2010

Apanhadores de Flor e a natureza do Espinhaço Carlos Eduardo Mazzetto Silva



     Desde 1500, quando se começou a inventar o Brasil, os povos que tem apego à terra são expropriados dela, tratados como gente menor. Os primeiros foram os índios que tinham este espaço como seu habitat. Felizmente para a humanidade, alguns resistiram e conseguiram conquistar, recentemente, algum direito a viver em seu território. Mas, a expropriação, o genocídio e o espistemicídio (destruição dos conhecimentos) foi de grande monta.
     Mas, existe um ator social invisível no Brasil, meio parente dos indígenas pela herança do apego à terra. Seu nome sociológico e antropológico é campesinato. Já foi e é chamado de pequeno produtor/agricultor, trabalhador rural e mais recentemente vem sendo chamado de agricultor familiar. Em alguns casos, seus grupos recebem hoje o nome de comunidades tradicionais e, nesse caso, se referem a identidades específicas: quilombolas, seringueiros, caiçaras, pantaneiros, geraizeiros, caatingueiros, vazanteiros, beiradeiros, quebradeiras de coco, … Seu destino para a sociedade moderna parece estar traçado: não existir, ser invisível, não ter direitos, habitar “espaços vazios”, dar lugar ao desenvolvimento e seus mega-projetos gulosos de territórios e recursos naturais (barragens, monoculturas, complexos industriais, minerações)…
     Assim como a natureza, essas comunidades são erradicadas para deixar o progresso seguir sua rota cega. Não é à toa, sua vida é conectada com a Mãe-natureza, é seu habitat e sua base de sobrevivência. Não são pouca gente, alguns estudiosos estimam essas comunidades tradicionais em 25 milhões de pessoas!!
     Recentemente, conheci as comunidades “apanhadoras de flor”. Estão aqui, perto do centro de Minas Gerais (região de Diamantina, alto-Jequitinhonha), onde a história minerária fortemente se deu. São milhares de famílias que vivem na Serra do Espinhaço coletando sempre-vivas e uma infinidade de espécies de flor das campinas e carrascos, fazendo pequenas roças de subsistência, criando algum gado solto da serra e nos cerrados do sertão que a rodeiam, garimpando artesanalmente (a chamada faiscagem). Tem múltiplas habilidades e praticam a economia diversificada. Conhecem tudo da vida da Serra: bichos, caças, plantas, lapas, minérios, clima, solos … São os mestres da natureza do lugar. Algumas comunidades tem 300 anos de história de vida na Serra. Entretanto, contraditoriamente, sua vida está sendo impedida por uma política que tem (ou diz ter) o objetivo de preservar a natureza!!!
     Descaminhos da modernidade e de um ambientalismo que reproduz o artificialismo da separação homem/natureza ou, se quisermos, sociedade/natureza. Essa separação, instituída pela modernidade ocidental, se reproduz na concepção dos “parques sem gente”. Querem instituir as chamadas Unidades de Conservação Ambiental de proteção integral em áreas onde ainda existe a biodiversidade característica dos diversos biomas e ecossistemas. Esquecem, ignoram ou não querem ver que essa biodiversidade remanesce ali porque há um modo de vida (sociodiversidade) que se adaptou, convive, maneja e até ritualiza esses ambientes que os preservacionistas da cidade querem proteger.
     Essas comunidades e seus ecossistemas formam um só quadro, uma só paisagem: humana e natural. Os biólogos preservacionistas ao sobrevoarem essas regiões e vê-las na distância das imagens de satélite, crêem que são paisagens meramente “naturais”, não descem à escala da vida humana, ignoram-na. Não percebem que o que remanesce ali é uma sociobiodiversidade oriunda da co-evolução social e natural. Não há nesses lugares a dicotomia entre natureza e cultura – a natureza é culturalmente apropriada e transformada/conservada; a cultura é produto do processo de adaptação e convivência com a mãe-natureza. A vida se articula aos fluxos e ciclos ecológicos.
     A implantação dessas Unidades de Conservação de proteção integral (na região, a maior é o Parque Nacional das Sempre Vivas, mas existem ainda três parques estaduais: do Rio Preto do Pico do Itambé e Beriberi) a partir desses sobrevôos (sem um estudo local aprofundado) se tornam uma tragédia humana, um atentado sócio-cultural, uma afronta aos direitos humanos, um tiro exterminador no que resta de interação sustentável entre sociedade e natureza. O conflito se instala, as comunidades têm que resistir, afinal esse é o seu lugar, seu território, sua vida. Contraditoriamente, o objetivo da conservação da natureza fica ameaçado, pois aqueles que são os mais aptos e dispostos a defendê-la no seu dia a dia, se transformam em vítimas e inimigos das Unidades de Conservação que as oprimem e expropriam. Não podem mais coletar flores, não podem mais criar gado, não podem mais usar o fogo como elemento de manejo em hipótese nenhuma, não podem coletar um fruto da Serra para se alimentar (tem que deixar para os outros animais que as UCs querem preservar), não podem circular nos caminhos que sempre circularam. Não podem nem mais morar onde moraram por mais de século, pois seu lugar virou parque – um invasor que virou suas vidas de cabeça para baixo. Para onde vão? Já sabemos o enredo, as periferias e favelas urbanas estão aí para nos esclarecer sobre esse repetitivo processo histórico: uma outra paisagem é claro, não mais fruto da co-evolução entre comunidade e natureza, mas da perversidade moderna de sua separação, da eterna expropriação camponesa, os perdedores de sempre. Depois, os governos e seus órgãos organizam seminários sobre o desenvolvimento sustentável …

Carlos Eduardo Mazzetto Silva é Eng. Agrônomo, doutor em Geografia (Ordenamento Territorial e Ambiental/UFF), professor adjunto da Faculdade de Educação da UFMG, autor de “O Cerrado em Disputa: apropriação global e resistências locais” (Ed. CONFEA, 2009), entre outros trabalhos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Texto paradigmático escrito por um brasileiro que vive na Europa:




"Já vai para 16 anos que estou aqui na Volvo, uma empresa sueca. Trabalhar com eles é uma convivência, no mínimo, interessante. Qualquer projeto aqui demora 2 anos para se concretizar, mesmo que a idéia seja brilhante e simples. É regra. Então, nos processos globais, nós (brasileiros, americanos, australianos, asiáticos) ficamos aflitos por resultados imediatos, uma ansiedade generalizada. Porém, nosso senso de urgência não surte qualquer efeito neste prazo. 

Os suecos discutem, discutem, fazem "n" reuniões, ponderações. E trabalham num esquema bem mais "slow down". O pior é constatar que, no final, acaba sempre dando certo no tempo deles com a maturidade da tecnologia e da necessidade: bem pouco se perde aqui. 

E vejo assim: 

1. O país é do tamanho de São Paulo; 

2. O país tem 2 milhões de habitantes; 

3. Sua maior cidade, Estocolmo, tem 500.000 habitantes (compare com Curitiba, que tem 2 milhões); 

4. Empresas de capital sueco: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare... Nada mal, não? 

5. Para ter uma idéia, a Volvo fabrica os motores propulsores para os foguetes da NASA. 

Digo para os demais nestes nossos grupos globais: os suecos podem estar errados, mas são eles que pagam muitos dos nossos salários. 

Entretanto, vale salientar que não conheço um povo, como povo mesmo, que tenha mais cultura coletiva do que eles. 

Vou contar para vocês uma breve só para dar noção. 

A primeira vez que fui para lá, em 90, um dos colegas suecos me pegava no hotel toda manhã. Era setembro, frio, nevasca.. Chegávamos cedo na Volvo e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2.000 funcionários de carro). No primeiro dia não disse nada, no segundo, no terceiro... Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manhã, perguntei:

"Você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento vazio e você deixa o carro lá no final." Ele me 
respondeu simples assim: "É que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar - quem chegar mais tarde já vai estar atrasado, melhor que fique mais perto da porta. Você não acha?" 

Olha a minha cara! Ainda bem que tive esta na primeira. Deu para rever bastante os meus conceitos. 

Há um grande movimento na Europa hoje, chamado Slow Food. A Slow Food International Association - cujo símbolo é um caracol, tem sua base na Itália (o site www.slowfood.com , é muito interessante. Veja-o!). O que o movimento Slow Food prega é que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, "curtindo" seu preparo, no convívio com a família, com amigos, sem pressa e com qualidade. 

A idéia é a de se contrapor ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida em que o americano endeusificou. 

A surpresa, porém, é que esse movimento do Slow Food está servindo de base para um movimento mais amplo chamado Slow Europe como salientou a revista Business Week numa edição européia. 

A base de tudo está no questionamento da "pressa" e da "loucura" gerada pela globalização, pelo apelo à "quantidade do ter" em contraposição à qualidade de vida ou à "qualidade do ser". 

Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses. 

E os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%. 

Essa chamada "slow atitude" está chamando a atenção até dos americanos, apologistas do "Fast" (rápido) e do "Do it now" (faça já). 

Portanto, essa "atitude sem-pressa" não significa fazer menos, nem ter menor produtividade. 

Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais "qualidade" e "produtividade" com maior perfeição, atenção aos detalhes e com menos 
"stress". 

Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do "local", presente e concreto em 
contraposição ao "global" - indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé. 

Significa um ambiente de trabalho menos coercitivo, mais alegre, mais "leve" e, portanto, mais produtivo onde seres humanos, felizes, fazem 
com prazer, o que sabem fazer de melhor. 

Gostaria de que você pensasse um pouco sobre isso... 

Será que os velhos ditados "Devagar se vai ao longe" ou ainda "A pressa é inimiga da perfeição" não merecem novamente nossa atenção nestes tempos de desenfreada loucura?

Será que nossas empresas não deveriam também pensar em programas sérios de "qualidade sem-pressa" até para aumentar a produtividade e qualidade de nossos produtos e serviços sem a necessária perda da "qualidade do ser"? 

No filme "Perfume de Mulher", há uma cena inesquecível, em que um personagem cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça para dançar e ela 
responde: "Não posso, porque meu noivo vai chegar em poucos minutos." --"Mas em um momento se vive uma vida" - responde ele, conduzindo-a num passo de tango. 

E esta pequena cena é o momento mais bonito do filme. 

Algumas pessoas vivem correndo atrás do tempo, mas parece que só alcançam quando morrem enfartados, ou algo assim.. Para outros, o tempo demora a passar; ficam ansiosos com o futuro e se esquecem de viver o presente, que é o único tempo que existe. 

Tempo todo mundo tem, por igual!Ninguém tem mais nem menos que 24 horas por dia. A diferença é o que cada um faz do seu tempo. Precisamos saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon: 

"A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro"... 

Parabéns por ter lido até o final!

Muitos não lerão esta mensagem até o final, porque não podem "perder" o seu tempo neste mundo globalizado. Pense e reflita, até que ponto vale a pena deixar de curtir sua família. De ficar com a pessoa amada, ir pescar no fim de semana ou outras coisas... Poderá ser tarde demais! Saber aprender para sobreviver...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010




Mais de um bilhão de pessoas passam fome no mundo, diz ONU

Centro de racionamento de alimentos na Somália (arquivo)
Partes da África estão entre as mais atingidas pela fome
Mais de um bilhão de pessoas, cerca de um sexto da população mundial, sofre com a subnutrição de acordo com o relatório anual da Organização das Nações Unidas (ONU) a respeito de segurança alimentar, divulgado nesta quarta-feira.
O relatório elaborado pela FAO, a agência da ONU para alimentação e agricultura, afirma que o número de pessoas que sofre com a fome estava crescendo antes mesmo da crise econômica mundial, mas depois a situação piorou ainda mais.
"A FAO estima que 1,02 bilhão de pessoas estão subnutridas no mundo todo em 2009", diz o documento, divulgado na sede da organização, em Roma. "Isto representa mais pessoas com fome do que em qualquer outra época desde 1970 e uma piora das tendências que já estavam presentes antes mesmo da crise econômica."
"A meta da Cúpula Mundial sobre Alimentos (de 1996), de reduzir o número de pessoas subnutridas pela metade, para não mais do que 420 milhões até 2015, não será alcançada se as tendências que prevaleceram antes da crise continuarem", acrescentou o relatório.
A FAO afirma que as regiões da Ásia e Oceano Pacífico têm o maior número de pessoas subnutridas, 642 milhões, seguidas pela África Subsaariana, com 265 milhões de pessoas.
No entanto, o relatório também afirma que alguns países apresentaram uma melhora dramática nos níveis de subnutrição desde 1990, incluindo Brasil, Vietnã, Arábia Saudita e México.
"Nenhum país está imune e, como sempre, são os países mais pobres e as pessoas mais pobres que sofrem mais", diz o texto.
Diminuição na ajuda
O relatório da FAO foi lançado por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, que ocorre na sexta-feira.
O documento afirma também que a crise econômica reduziu a ajuda estrangeira e o investimento em países mais pobres, além de diminuir o envio de dinheiro dos que trabalham em países mais ricos.
A agência da ONU afirma que é necessário mais esforço internacional para diminuir a fome no mundo e também pede mais investimentos internacionais em agricultura e dispositivos de segurança para a economia em países mais pobres "apesar dos problemas financeiros enfrentados por governos do mundo todo".
Nesta quinta-feira, o diretor-geral da FAO Jacques Diouf deve apresentar uma série de propostas para ajudar os países mais afetados pela fome.
Brasil
O Índice Global de Fome, uma pesquisa publicada pela Unidade Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês), revelou que a República Democrática do Congo foi o país com o maior aumento da fome desde 1990, seguido por Burundi, Comores (arquipélago no Oceano Índico) e o Zimbábue.
Por outro lado, de acordo com o índice, alguns países demonstraram uma grande melhora nos níveis de subnutrição desde 1990. Em primeiro lugar está o Vietnã, seguido pelo Brasil.
Ao citar as medidas adotadas pelo Brasil para a melhora nos níveis de subnutrição, o relatório cita programas do governo como o Fome Zero, o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e também o aumento do salário mínimo.
O relatório descreve também uma "crise no preço dos alimentos", pois estes preços se estabilizaram em um nível muito alto para muitas pessoas em países em desenvolvimento.
E como solução, o documento sugere que dar mais poder para mais mulheres nos países em desenvolvimento, por meio de educação e mais acesso a empregos, é a chave para diminuir a fome no mundo.